segunda-feira, novembro 08, 2004

Poda

Jasmim
sem ti aqui jaz
mim

quinta-feira, outubro 28, 2004

Solidão

No seco galho
o pássaro cego padece
chuva e orvalho

Prisão

Encima do galho seco
abaixo de chuva
entre vista o pássaro cego

Temporal

Ato falho
o pássaro molhado
no seco galho

à francesa

Balzac
na j'acuse
é oh! menàge!

PT x Marxismo

Foice mais um gole
do martelo
da prole no farelo

Oriente-se

Samurai
Haraquiri, sepuku, rimai
ou morra de rir.

Desorientado

Cheio de dedos
um bolso e três braços
foram trocados

Suporte

Bolinar o teclado
com dedos de vinho
é pecado divino.


Segunda via

Não há mal nenhum
termos, eu e Platão,
algo em comum

Diagnóstico

Homero coitado
viajou
no passado.

Atração Fatal

Brincar é bom
diz a libélula
à luz neón

quarta-feira, outubro 27, 2004

Prontidão

Na rodoviária toda semana
eu e o cão Argos
reconhecemos quem nos ama.

A mesma praça o mesmo banco e o mesmo jardim

Banco ao luar
de modo sereno
eu rio do mar

Epigmático

Lua cheia
na cama a aranha
tenteia

Que importa
lua na janela
e tramela na porta

Feriadão

Feriado gordo
não fosse isto
seria a kilo

Videoeclipse

Foi assim
ela me despiu
e depois saiu

Procto

A vista
é outro preço
diz o oculista

ao Nelson

segunda-feira, agosto 16, 2004

Czeslaw Milosz (1911-2004)

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.
Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças, ou de tecidos vaporosos,
Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo, embalado por sonhos porno.
Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova e não para os jogos e brincadeiras da juventude.
Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz, compondo as cenas desta terra, movido pela imaginação erótica.
Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,e elas são como um sinal de convívio extático.
Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de contemplaçãodesinteressada e metade de apetite.
Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos e dos ossos pesados.
Transformado em puro olhar, continuarei a absorver as proporçõesdo corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense na madrugada de Junho.Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade das coisas visíveis.

In Alguns gostam de poesia - Antologia, Cavalo de Ferro, Março de 2004.



A Varsovie près d'un manège, / Par un beau soir de printemps, / Aux sons d'une allègre musique ; / Les salves venant du ghetto / Se perdaient dans la mélodie / Et les couples s'envolaient / Lancés haut dans le ciel serein. / Le vent des maisons incendiées / Apportait de sombres lambeaux, / Ils attrapaient en l'air des cendres / Ceux qui allaient au manège. / Et les robes des filles volaient -...-et les gens riaient heureux / Ce beau dimanche de Varsovie".



Proprio qui, su questa piazza

Fu arso Giordano Bruno.

Il boia accese la fiamma

Fra la marmaglia curiosa.

E non appena spenta la fiamma,

Ecco di nuove piene le taverne.

Ceste di olive e limoniSulle teste dei venditori.
C’è chi ne trarrà la morale

Che il popolo di Varsavia o Roma

Commercia, si diverte, ama

Indifferente ai roghi dei martiri.

Altri ne trarrà la morale

Sulla fugacità delle cose umane,

Sull’oblio che cresce

Prima che la fiamma si spenga.
Eppure io allora pensavo

Alla solitudine di chi muore.

Al fatto che quando Giordano

Salì sul patibolo

Non trovò nella lingua umana

Neppure un’espressione

Per dire addio all’umanità,

L’umanità che restava.
Rieccoli a tracannare vino,

A vendere bianche asterie.
Ceste di olive e limoni

Portavano con gaio brusìo,

Ed egli già distava da loro

Come fossero secoli.
Czeslaw Milosz



De "Salvación"
Exactamente en esta plaza

Fue quemado Giordano Bruno

(……)

Se dirá que la moral

Es que en Varsovia o en Roma

La gente se divierte, ama

Despreocupada de los mártires sobre la hoguera.

O se verá la moral

En la fugacidad de las cosas

Humanas, en el olvido que nace

Antes aun de que el fuego se extinga.

Yo en cambio pensaba entonces

En los que mueren solos,
Pensaba que cuando Giordano

Subió a aquel patíbulo,

No encontró en la lengua humana

Ni siquiera una palabra

Para decir adiós a la humanidad.

La humanidad que quedaba.

(…….)

De estos muerientes, solos,

Ya olvidados por el mundo,

También la lengua nos es extraña

Como lengua de antiguo planeta.

Hasta que todo sea leyenda

Y entonces después de tantos años

En el nuevo Campo de’ Fiori

Un poeta encenderá la revuelta.

Czeslaw Milosz